A infância que já se foi

infancia

 

Tenho hoje 24 anos de idade. Não sou velho, mas já guardo na memória lembranças que parecem à muito ter ocorrido. Obviamente essa sensação não é por causa dos anos que passaram, mas sim pelo quanto evoluímos (tecnologicamente falando, apenas) de uns anos para cá.

O auge de minha adolescência foi no início dos anos 2000. Naquela época (perceba que fazem apenas 13 anos!!!), a minha maior – e única – preocupação era tirar notas boas na escola. Na mesma situação se encontravam meus amigos (alguns que ainda mantenho contato até hoje). Aquela foi uma época gostosa de ter vivido, ainda mais para pessoas na nossa idade. Todos tinham na faixa dos 12 aos 15 anos, então os assuntos e os interesses se encaixavam perfeitamente. A vida era aparentemente fácil para nós, pois acordávamos cedo e o café estava pronto na mesa. Saímos para brincar e quando voltávamos o almoço estava servido. O mesmo para café da tarde e janta, como se fosse mágica! Nossas mães e pais cuidavam de tudo, desde a alimentação até a roupa, além de acompanhar nossa rotina escolar e nos manter na linha. Não tínhamos obrigações sérias, apenas algumas tarefas leves e nada que comprometesse nossa diversão.

 

A diferença entre gerações

Lembro-me que levantava cedo para assistir o Programa da Eliana – quando ela ainda fazia programa para crianças – e ver Pokemon. Qual criança / adolescente da época que não sonhava em ter um Charizard de verdade? Também fazia coleção das cartelinhas que vinham nos pacotes de salgadinhos. Batia tazo, bafo, trocava e negociava, fazia o impossível para conseguir completar a coleção, e é claro, com exceção dos salgadinhos, não gastava um centavo com isso. Hoje, para completar a coleção das figurinhas do Ben10, por exemplo, basta o interessado entrar no Mercado Livre e pronto, a coleção completa foi adquirida com sucesso. No final do mês o jovem recebe a fatura de SEU próprio cartão de crédito com o valor a pagar. Ele também não se anima acordar cedo para assistir aos seus desenhos favoritos, pois é só baixar os episódios depois, ou assistir direto no Youtube.

 

coisas-da-infancia

 

Em 2000, a internet começava a ficar popular. Poucos tinham acesso, e mesmo assim a conexão era lenta. Mesmo aqueles que tinham acesso em casa, não perdiam o dia todo na frente do computador. Na verdade não perdiam nem um pouco do dia na frente da máquina. Alguns tinham videogame – pegamos a era de ouro, com Super Nintendo, N64 e os primórdios do PlayStation – e ainda assim isto era apenas um complemento para a diversão. Videogame e computador eram mais para os dias que estava chovendo, ou para a noite, quando não podíamos mais ficar na rua. Jogávamos jogos de tabuleiro (vide WAR, Jogo da Vida, Banco Imobiliário, etc..) e isso era extremamente divertido! Os celulares que tínhamos eram apenas para trocar mensagens de texto com figurinhas criadas a partir dos caracteres especiais do teclado, para jogar SNAKE, e pras mães saber onde estávamos. O conceito “smartphone” era algo que não existia. Quem aqui em minha faixa etária nunca esteve com um NOKIA 5120 na mão?

 

nokia5120

 

Essa era toda a tecnologia que tínhamos, e mesmo assim pouco ligávamos para ela. Gostávamos mesmo era de jogar bola na pracinha, jogar taco no meio da rua e gritar “Licença pra Dois” e “Desfeita pra Dois” quando passavam os carros, invadir o pátio dos vizinhos apenas para pegar a bola que ali havia caído, olhar as meninas – e apenas olhar, pois nunca tínhamos coragem de fazer nada além disto – que passavam na rua, trocar informações sobre as evoluções dos Pokemons e Digimons mais fortes e colecionar revistas com conteúdo impróprio. Às vezes também jogávamos pião e bolinha de gude, resgatando um pouco da infância já distante de nossos pais, andávamos de bicicleta e skate. Criávamos nossos próprios jogos, regras, e campeonatos (meus amigos devem se lembrar do famoso Ping-Ball que criamos, certo?), discutíamos e ficávamos semanas sem nos falar. Conseguíamos novos itens sempre através da troca (um boné com 8 linhas na aba por um relógio que muda de cor no sol, ou uma carteira de imitação de couro por uma fita K7 dos Mamonas Assassinas, e por aí vai…), e gastávamos os pneus da bicicleta derrapando no areião só para levantar poeira, ver a marca no chão e ter a sensação de estar em um rally ou em grande velocidade. Estourávamos bombinhas e rojões no Ano Novo e no Natal, sem sentir pena do medo que provocávamos nos cachorros da vizinhança. Atirávamos em garrafas de plástico ou uns nos outros com as armas de brinquedo carregadas com pequenas bolinhas de plástico, e as vezes até desmontávamos estas arminhas para esticar as molas e fazer o tiro sair mais forte. Diziam que podia até cegar se um tiro daqueles pegasse no olho (ou se apontássemos nossos lasers vermelhos na direção da vista de alguém), mas acho que as telas de computador hoje são mais nocivos para a visão que nossos brinquedos da época.

 

Lembro também que tínhamos uma “rádio”, se assim podemos chamar. O amigo Alex Brustolin cedia o som com CD (modernidade na época), além do amplificador e os microfones, e passávamos tardes falando, contando piadas e tocando música para a vizinhança ouvir (num raio de uns 150 metros, no máximo). Nunca ninguém reclamou, mas também nunca elogiaram o trabalho semi-profissional que desempenhávamos ali. Me questiono agora se a geração de hoje tivesse essa mesma ideia: a rádio seria online, certamente. Os “radialistas” ficariam cada um em sua casa, na frente do PC. Ao invés de conversarem entre si enquanto uma música toca, ficariam em seus facebooks bisbilhotando a vida alheia. Trocariam palavras somente quando extremamente necessário, quando alguma ação não automática do sistema da rádio online dependesse da interação deles. A criação da rádio não seria feita pela diversão, mas sim para ficar popular na internet. A diversão ficaria em segundo plano…

 

Não critico a tecnologia que temos hoje, pois sem ela por exemplo eu não teria este blog e não estaria escrevendo isto agora, mas critico sim o jeito que muitos de nós à usamos as vezes. Hoje temos facilidades que à 10 anos atrás achávamos improváveis, porém não sabemos utilizar e aproveitar estes benefícios. Vejo crianças de 2 anos de idade ser presenteadas com um tablet para ficar jogando Angry Birds, enquanto eu nesta idade comia terra (o segundo fato é uma piada, mas não fica longe da verdade). E pior, vejo adultos que assim como eu, como meus amigos, como nossos pais, cresceram sem smartphones e banda larga enlouquecerem quando ficam sem conexão. Pessoas nas ruas andando de cabeça baixa por não conseguirem tirar os olhos do telefone. Eu costumo falar sempre e repito: esta geração é a mais babaca de todos os tempos, sem dúvida alguma. Um povo consumista que gasta 2 mil reais em um iPhone sem nem saber como desbloqueá-lo, apenas pela marca e pelo status. Pais que dão para seus filhos aparelhos tecnológicos que custam bem mais que uma bicicleta, ou uma bola de futebol. Filhos que fazem escândalo por não ganhar um PlayStation 3 de aniversário, mesmo sabendo da difícil situação financeira de seus pais… Uma geração de zumbis tecnológicos.

 

Para finalizar – já escrevi demais – gostaria de agradecer aos meus amigos de infância (Rudinei (Rudi / Negão), Alex (Testa), Lucas (Flogoral), Sidinei (Nêne), Bruno (Cuiuca), o outro Bruno (Mijão), Paulinho (esse sempre foi Paulinho), Valdir (Gordo), entre outros…), pois passei muitos momentos agradáveis ao lado de todos. Sei que a vida segue, mas as boas lembranças ficam e com certeza compartilharei-as com meus filhos. Ao contrário do fluxo que o mundo está seguindo, pretendo fazer com que eles vivam a vida, e não que sejam consumidos por ela. Agradeço também a minha esposa por me “puxar a orelha” as vezes e não deixar que me encaixe neste fluxo, já que trabalho com tecnologia e as vezes me perco no meio dos códigos, hehehehe…. O mundo evoluiu muito rápido em muito pouco tempo, e torço para que isto não torne alienadas esta nem as próximas gerações.

 


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Publicado em Opinião
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Sobre o autor

Me chamo Ricardo Brusch, sou programador e desenvolvedor de sistemas para internet. Também sou aspirante a escritor, e você pode ler alguns de meus contos malucos em contos.ricardobrusch.com.br.
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