Ensino Superior – Fazer ou não fazer?

Por quê tanto por um canudo?

Por quê tanto por um canudo?

 

Sabe aquela sensação que temos quando algo não está certo, e mesmo assim ainda insistimos naquilo? Estou sentindo isso com relação à iniciar ou não um curso no ensino superior. Por diversas vezes me veio a vontade e a convicção de que fazer um curso no estilo “Sistemas para Internet” era a melhor (e talvez a única) saída para ser valorizado no mercado de desenvolvimento. O curso é rápido – dois anos e meio se tudo der certo -, relativamente barato – em algumas escolas à distância, a parcela fica perto dos 300 reais mensais – e ainda me dará em tempo recorde o título de tecnólogo. E mais: poderia tranquilamente me candidatar à uma vaga que tivesse como exigência “Ensino Superior – completo ou cursando”.

 

Ótimo, até aqui somente fatores positivos. Então qual a minha dúvida? Se eu não trabalhasse na área de tecnologia, não teria dúvidas. O Ensino Superior e seus derivados, sejam eles quais forem, são a melhor forma de ser valorizado no mercado de trabalho. Mas estamos falando de tecnologia. De informática. E no meu caso, de desenvolvimento. Falo na primeira pessoa, mas sei que temos milhares de outros desenvolvedores, técnicos de suporte e outros na mesma situação. Escrevo este texto não por mim, mas por fazer parte dessa massa que se revolta em ver a grade curricular de um curso superior em nossa área e pensa: “O que eu tenho para aprender aí?”. Peço que não me interpretem mal, pois não estou subestimando estes cursos. Estou tentando expor a visão de uma pessoa que já trabalha na área e aprendeu bastante com as situações que só a experiência e a convivência com a profissão podem proporcionar. Se eu quisesse ser médico, obviamente que não ia poder receitar um remédio ou operar um paciente sem passar pela faculdade antes. Mas estamos falando de uma coisa mais abstrata, que é a tecnologia como um todo. Existem centenas de escolas com cursos livres de desenvolvimento para internet, desktop, cursos para suporte à hardware e software, entre muitos outros que não exigem nada além de um conhecimento prévio básico sobre o assunto e boa vontade de estudar por conta. Da mesma forma, esse rapaz que estudou por conta pode prestar alguns serviços por conta também, e assim ir adquirindo experiência naquilo que está trabalhando. E quanto mais dedicado for o indivíduo, mais informação ele buscará, mais cursos irá fazer, e mais profissional seu trabalho irá ficar. Isso tudo sem entrar em uma faculdade.

 

Ao longo de algum tempo, este indivíduo pode ter adquirido um grande conhecimento na sua área (vamos citar por exemplo programação com javascript). Ele se tornou um bom desenvolvedor front-end, e quer agora trabalhar em uma empresa grande. Ao pesquisar por vagas, se depara com a seguinte situação: a grande maioria das empresas pedem conhecimentos na área que ele domina, e também exige nível superior. E é nessa parte que eu quero chegar, pois o assunto principal do artigo é este: fazer ou não fazer o (maldito) ensino superior?

 

Sendo a área de desenvolvimento vasta do jeito que é, onde você tem muitas opções de linguagens para programação e cada uma delas é voltada para uma situação diferente da outra, é inviável que aprendamos todas em uma faculdade. E esta também não é a intenção da mesma. Ela te passa uma base (muito) superficial do mundo que você está entrando, e de dá algumas direções que pode seguir. Não é preciso fazer um curso superior para descobrir isto, basta observar as cadeiras de cada um dos possíveis cursos que você faria. Cadeiras tipo “Lógica” não acredito que devessem ser exclusivas para a área de Tecnologia, e sim para todo e qualquer curso superior. Acharia interessante inclusive que ensinassem isto desde o ensino médio e se possível desde o fundamental. Sem lógica a pessoa fica de mãos atadas diante de uma situação um pouco mais complexa, que fuja daquilo que ela viu em sala de aula, independente do que estudou. Outras cadeiras como aquelas que tratam sobre “relacionamentos intrapessoais” também são desnecessárias no meu ponto de vista. Todos somos civilizados o suficiente para saber trabalhar em equipe e ser educados nas mais diversas situações. Aqueles que por algum motivo não se encaixam nestas condições certamente não vão mudar por causa de uma cadeira na faculdade. As cadeiras que falam sobre programação em si na maioria das vezes abordam linguagens como Java, e garanto-lhes que mais da metade da turma vai aprender Java só por causa do curso, não por quê realmente utiliza em seus projetos ou nas empresas que almejam trabalhar. E mesmo aqueles que vão utilizar a linguagem acabam saindo insatisfeitos, pois no final do curso mal aprenderam Orientação à Objetos e o mercado exige no mínimo boa experiência com isto, além de conhecimento em frameworks, design patterns e etc…

 

No fundo mesmo, se analisarmos ao pé da letra, a faculdade serve parar criarmos um bom networking, fazer novas amizades e aprender conceitos de coisas que vamos ter que estudar por muito tempo mesmo após o término do curso para dominarmos. Bote na balança o tempo investido nisto (nem vou levar em consideração o custo que isto gera também) e compare com o tempo que você pode investir em cursos livres, cursos online, pesquisas e participações em workshops, etc… Agora leve em consideração a mensalidade de 300 reais em uma faculdade à distância e pense que você vai ficar revendo coisas que já sabe, ou coisas que não sejam tão relevantes (quem aqui que trabalha com desenvolvimento que não sabe como funciona um laço de repetição ou uma condicional, por exemplo), ao mesmo tempo que estes 300 reais podem ser investidos em 3 cursos diferentes de 100 reais cada um (média de preço da TreinaWeb, ótima escola online). Em um ano seguido de cursos do gênero, se bem escolhidos e obviamente com dedicação por parte do aluno, garanto à você que seu conhecimento teórico sobre determinada área ou assunto será maior que o adquirido em 2 anos e meio de um tecnólogo. Além da grande quantidade de certificados adquiridos ao longo deste tempo. Após isso, você pode inclusive arriscar uma certificação internacional de acordo com sua área de interesse. Além do mais, você ainda dispõe de mais tempo para tocar seus projetos pessoais, nos intervalos entre um curso e outro.

 

Infelizmente, as empresas dão mais valor à um certificado de nível superior do que conhecimento por parte do funcionário. Acredito (e esta é minha opinião pessoal) que boa parte dos alunos em faculdades de tecnologia estão fazendo-a apenas pelo diploma, não pelo conhecimento que possam adquirir ali. Isso é extremamente frustrante, pois se gasta uma grana preta para concluir um curso que não lhe trará benefícios reais à vida profissional, já que há uma regra ou sei lá como chamar essa obsessão por status que só é alcançada após receber o título de tecnólogo ou bacharel em alguma área, além da ignorância das empresas que geralmente colocam pessoal dos Recursos Humanos para avaliar currículos e entrevistar candidatos da área de Tecnologia. Ironizando um pouco, eu imaginei a situação: “Estamos com dois currículos aqui para uma vaga de programador PHP. Este primeiro tem experiência com Web Services, Design Patterns, e tem certificação Zend… Eu nem sei o que é Design Patterns muito menos o quem é esse Zend… Ahh mas esse outro aqui está cursando Administração na PUC e diz programar em HTML! Vou chamar este mesmo!”

 

Brincadeiras à parte, espero que entendam meu ponto de vista. Já estou decidido em não fazer o ensino superior enquanto não criarem um curso que eu realmente acredite que vá agregar valores ao meu conhecimento, e não apenas ao meu currículo. Vou ser discriminado e ganhar menos por isso? Possivelmente sim, mas me recuso à fazer algo por convenção ao sistema falho que temos neste país medíocre chamado Brasil (pronto, agora entramos na parte política, mas vou parar por aqui…)

 

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Publicado em Opinião
  • Edgard

    Cara, vc sabe como eu compartilho do teu ponto de vista… Post nota 10, vamos torcendo para um dia o panorama disso tudo virar do avesso… Tá tudo errado. =(

    • http://www.ricardobrusch.com.br Ricardo Brusch

      Valeu pelo comentário, Ed! Quem sabe um dia conseguiremos ser reconhecidos pelo nosso esforço e dedicação, e não apenas pelo título que possuímos. Tem muito carinha na faculdade que aparece uma vez por mês ou em semana de prova, precisa colar para passar (sem contar aqueles que tem pais que pagam para isso…) e por possuírem o certificado depois de 4 anos de festas na faculdade acaba tendo preferência na hora de ser chamado para uma entrevista… Esse sistema está realmente errado, como você mesmo falou.

      Não acho que devamos desvalorizar a faculdade e/ou aqueles que à fazem, apenas valorizar mais o pessoal que estuda por conta, que demonstra interesse em aprender, e que muitas vezes também não tem condições de pagar caro pelo ensino…

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Sobre o autor

Me chamo Ricardo Brusch, sou programador e desenvolvedor de sistemas para internet. Também sou aspirante a escritor, e você pode ler alguns de meus contos malucos em contos.ricardobrusch.com.br.
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